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26.10.17

Estado Civil

Hoje tive o pôr-do-sol mais lindo de todos, desde que nos mudamos. Dourado. Lembra dos dourados? Que a gente via em silêncio para não atrapalhar? Imóveis para não macular? O de hoje foi assim. Mas você não estava do meu lado, imóvel e em silêncio, vendo tanta beleza. E estava tão lindo que doeu. Doeu sua ausência, doeu você não ver tanta beleza.

De toda burocracia em que nos afogamos durante o luto a mais massacrante que enfrentei até agora foi escrever viúva pela primeira vez. Me classificar e me identificar como viúva. Não é só uma palavrinha, não são apenas cinco letras: é aquela ausência enorme. É aquela pessoa que não é mais - nem para mim, nem para os outros, nem para si própria. É a família que acabou, o casal que não existe mais, os projetos que se perderam. Alguns em definitivo, outros terão que ser ressignificados, adaptados, adequados, enfim, virarão outra coisa. É um amontado de fins, encerramentos e transmutações que não foram desejados, acalentados, geridos, protegidos e cultivados. É uma hecatombe. É uma praga que se alastra vorazmente e põe por terra o que encontra pelo caminho.

E tudo que posso fazer é escrever "viúva" e torcer para sobreviver. Sim, sobreviver, como disse uma amiga, é à revelia. E hoje eu sei o quanto isso é verdade e como, às vezes, pode ser irritante. Estou falando aqui de torcer para sobreviver com gosto. De acordar com prazer, dormir porque tem sono, descobrir um sabor diferente naquele prato de sempre numa cozinha nova.

Nunca foi tão difícil dar um passo de cada vez, viver apenas um dia por dia.




11 comentários:

  1. Que forte, duro e triste. Mas também muito corajoso e belo.

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  2. Ana Paula Medeirosqui out 26, 08:33:00 PM

    É isso. Você gostaria de também parar de respirar às vezes e deixar de existir. Mas. Você respira independente de querer ou não. E acorda quando amanhece o dia. E vê o por do sol. Que é lindo, ainda que traços de tristeza dominem. E você planeja encontrar os amigos no mês que vem e compra um livro e paga as contas e providencia as burocracias do luto. Sobrevive. Vive. E segue, a despeito de tudo, das lágrimas, da dor, da ausência, da memória. Quem te ama é como o barquinho que acompanha os nadadores de longa distância. O esforço é seu, a vitória é sua, o cansaço, as braçadas, a solidão do mar, tudo seu. O barquinho tá lá pra oferecer uma água, jogar uma bóia se der cãimbra, gritar palavras de motivação. Tem uma regata de barquinhos do seu lado, não esquece.

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  3. Força e doçura pra sua jornada. Beleza sua alma tem em abundância ❤️✨

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  4. Força e doçura pra sua jornada. Beleza sua alma já tem em abundância 🙏✨🌷

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  5. Que dureza, Priscila. E que lindo. O texto. É foda isso de criar belezas com a dor, né. Fica parecendo meio traição. Mas acho que nem. É um jeito disso aí, de sobreviver.
    Beijo grande, querida. Tamos aí pra um café ou qualquer outra coisa, quando você achar bom.

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    1. é um jeito de sobreviver, de não enlouquecer <3

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    2. Esses sentimentos - traição, culpa - são muito loucos. A gente sabe que não está traindo, sabe que não tem culpa de nada mas eles estão lá nos atormentando nos momentos bestas do dia a dia, como a hora de escovar os dentes ou quando estamos resolvendo uma mega burocracia que nem imaginávamos. Processo, Renata. Venho falando disso desde que a doença se agravou: temos que falar sobre o processo. Do câncer, da AIDS, do diabetes. O processo. A relação médico-paciente-família. Como me disse alguém por esses dias, temos uma verdadeira e poderosa Indústria da Doença.

      Café na Praça XV qualquer dia desses eu topo. Tem tudo lá: Paço, CCBB, Casa França-Brasil. Beijos.

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  6. Um abraço, um abraço. E que gracinha essa foto!

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  7. Amo essa foto. Esse é o Pretinho, o gato feral da rua que ele conseguiu domesticar. Ficavam sempre juntos ali, olhando as árvores. Ás vezes depois do café da manhã, às vezes depois do almoço. Mas sempre. Era parte da rotina dos dois,

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  8. Linda a foto. Um abraco, Priscila. Bem forte!

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  9. Muito bonita foto. Poética. Meiga. Abraço apertado, Pri.

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