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30.10.17

Amor ou telemarketing?

- Boa tarde, o senhor Bruno por favor?
- Ele morreu.
- A responsável pelas compras da casa agora é a senhora?

Ele morreu há apenas 3 semanas e já recebi três ligações como essa. Não deveria ter recebido nem mesmo uma.

Quando estava vivo, no auge da radioterapia, esquálido e com os médicos dizendo que ele não chegaria ao final do tratamento (chegou) as ligações eram ainda mais perversas porque não tinha ninguém do outro lado da linha. Era uma gravação oferecendo serviços funerários.

Sim, é isso mesmo: alguma agência é imbecil e canalha o bastante e algum cliente mais imbecil e mais canalha ainda para aprovar uma campanha que consiste em assediar famílias de pacientes oncológicos com telefonemas a qualquer hora do dia ou da noite, dia útil ou final de semana, oferecendo assistência funerária. Não solicitada.

Sim, dentro do universo da saúde (médicos, hospitais, clínicas, operadoras e etc.) há quem vaze ou venda informações sobre pacientes graves, em situação de risco. Hoje nos hospitais há placas alertando para golpes dados por telefone contra os pacientes e familiares. Ligavam para o meu celular e para o dele e, não satisfeitos, ligavam para o telefone fixo.

Imagine a cena: a pessoa que você ama, a quem você quer bem, absolutamente debilitada resolve ir sozinha para a radioterapia porque não é só o corpo que se deteriora, é o emocional também. Você cede, ainda que apavorada, porque entende que naquele momento, para sobreviver, a pessoa precisa acreditar que ainda tem alguma autonomia e gerência sobre a própria vida. Mesmo que não tenha. Vinte minutos depois da pessoa entrar em um táxi você atende um telefonema falando sobre a importância de ter quem nos auxilie nesse momento tão difícil, etc, etc, palavras desencontradas, baboseiras terroristas e, no meio, a palavra chave. A palavra que vai te derrubar no chão. Que vai te tirar a capacidade de perceber que é uma gravação: funerária.

Não, você não percebe de imediato que é uma gravação. Por um instante você pensa que a ligação é da clínica e que a pessoa morreu. E por um instante você perde o ar, o coração dispara, as pernas faltam. É apenas um instante. Mas esse instante dura uma eternidade, rouba sua paz de espírito - quando ainda há alguma - te desrespeita, desrespeita sua dignidade e a do paciente. Invade sua casa para te desrespeitar.

É por um instante e é aterrador. Principalmente quando você é acordado por essa ligação. E ela te acorda, várias vezes. E se você tem um paciente terminal em casa o sono é artigo raro e qualquer coisa que o perturbe traz junto taquicardia. Essas ligações não são só desrespeito, elas roubam a nossa saúde.

Esse instante acaba porque a gravação continua, indiferente ao seu interesse ou repulsa, agora oferecendo números para você escolher. "Para contratar digite 1" e por aí vai.

Tentei várias vezes, depois de me recuperar do susto, deixar a gravação ir até o fim para falar com o atendente e cancelar. Caía antes. Quando ia até o fim, a opção "cancelar" também derrubava a ligação. Enfim: usei o Reclame aqui e parecia que tinha acabado.

Há vinte e dois dias Bruno morreu. Há vinte foi enterrado. Semana passada recebi outra ligação como essa.

É imprescindível uma discussão e a tomada de ações relativas à todo o universo da indústria da saúde. E da publicidade e do marketing que o atravessam, via de regra, de forma aética, imoral, vergonhosa. Não dá para esperar que o governo haja. Cada um tem que, a partir de sua esfera, refletir, propor e exigir. No Brasil de hoje o doente e seus familiares são desrespeitados, não contam. Só o dinheiro importa. Médicos estão mercantilizando suas atuações. Hospitais estão, sorrateiramente, descontinuando o atendimento médico e privilegiando os serviços de hotelaria. Sim, é esse o termo usado. Hotelaria. Não é só a saúde pública que está caótica, a particular também. A Saúde não importa mais, é só palavra vazia em discurso de campanha e fonte de renda, alta renda, no resto do ano.


2 comentários:

  1. Nem sei o que dizer. Completamente estarrecida!

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  2. Os marqueteiros estão tão medíocres como grande parte dos ditos profissionais formados ou não em universidades particulares ou públicas. Infelizmente. Só acredito ser resultado de estratégias de manutenção de poder podre. Infelizmente.

    Luz��

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