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14.12.17

Como visitar um doente de câncer (é bem parecido com visitar um bebê)

Como disse minha mãe, vendo minha avó com familiares, cuidadoras, técnicos e fisioterapeutas aprendi a ter muito respeito por quem cuida do dia a dia do paciente, seja qual for. Se você não faz parte dessa turma e resolveu que fará apenas visitas esporádicas, lembre que naquele momento aquela casa é muito parecida com um hospital. Visitar um paciente com câncer é bem parecido com visitar um bebê (sério, não há deboche aqui):
- Se quiser levar comida pergunte antes o que a pessoa pode comer. Pergunte para ela e para quem está cuidando do dia a dia, que é quem vai saber melhor do que ninguém o que é permitido ou não. Explico: dependendo do tratamento a dieta pode ser muito restritiva. Ou a pessoa pode estar com náuseas.
- Pode por plumas e paetês se quiser, até quebra o gelo mas NÃO PONHA PERFUME. A pessoa pode estar com náuseas.
- Não ligue dizendo "estou pertinho da sua casa, posso dar uma passada aí?" Marque antes, com antecedência. A pessoa pode estar com náuseas. Dependendo do tipo de câncer pode estar com incontinência urinária ou fecal e num dia de diarréia.
- É lanche? Leve o lanche, bote a mesa, tire a mesa, lave, seque e guarde a louça. O doente não tem condições de fazer isso. Nada disso é função da cuidadora, enfermeira ou técnica de enfermagem. A empregada, dependendo do tratamento, estará afogada em roupa suja ou em trocentas panelas cozinhando ao mesmo tempo para encontrar uma comida permitida e que não dê náuseas no doente. A companheira ou companheiro está com medo, exausto, estressado e, muitas vezes lidando com o plano de saúde, a clínica a Anvisa e a Receita Federal, tudo ao mesmo tempo, para importar uma medicação que não é mais feita aqui por que não é lucrativa o bastante...
- Pergunte (e faça) o que a pessoa quer, de que ajuda precisa: mercado? Feira? Pagar na agência do banco aquele boleto que venceu?
Seja útil. O câncer não é contagioso, você não vai se contaminar. Mas o câncer é extremamente solitário para o paciente e para quem cuida do dia-a-dia. Esteja presente. Mesmo que seja por telefone, e-mail, whatsapp, skype. Mostre que se importa.
- Não diga bobagens como "tudo vai dar certo" ou "minha tia teve um câncer de pele no dedão do pé e está ótimo". Às vezes o cliente é terminal. O câncer da sua tia não tem nenhuma relação com o câncer da pessoa que você está visitando: existem vários tipos de câncer e cada organismo tem suas peculiaridades. A atuação do câncer em cada um é bem específica
- Você é médico? Sim, eu sou leiga. Esse texto é a minha experiência pessoal, portanto exclusiva. Sim, o que eu disse não se aplica à todos. Mas se aplica a maioria. E já que você é médico, que tal lembrar que paciente não é cliente?
Sim, Bruno sorria. Sorrir é bom e faz bem mas não significa que a pessoa está curada.

1.12.17

Prêmio João Canuto 2017

O jornalista, poeta e ativista Bruno Cattoni  será homenageado, assim como Vic Militello, no Prêmio João Canuto deste ano. Dia 11 de dezembro, segunda-feira, às 18h, no Teatro I do CCBB (RJ). Além da importante entrega de 08 (oito) prêmios à relevantes pessoas e instituições, show com Simone Mazzer, Rafael Erê e Valéria Houston. ENTRADA FRANCA!


17.11.17

Tangeria murcote

Hoje está sendo um dia especialmente difícil. Há dois meses levei Bruno para uma internação para exames. Ele não teve alta. No fundo eu sabia que não teria e ele também. No fundo sabíamos que não havia alternativa. Mas não foi isso que planejamos. Controladores e tolos, acreditamos que poderíamos controlar e planejar a morte: na nossa casa, no nosso quarto, na nossa cama, com os nossos gatos, olhando para a nossa vista. O que aconteceu foi bem diferente.

Nas primeiras 24 horas de hospital não dormi. Ficamos das 18h de domingo à 1h40 de segunda para convencê-lo a ir para o hospital, para entrar, para fazer os exames. Só dormi segunda-feira, no hospital, pouco antes de meia noite. Acordei uma hora e meia depois passando muito mal e fui levada às pressas para o pronto socorro. Não sou hipertensa. Minha pressão estava há 19/12. Mediram mais duas vezes e bateu 18/11 nas duas. Me deram um anti-hipertensivo sublingual, rivotril e dipirona. A cabeça parecia que ia rachar, os ombros e o pescoço pareciam de pedra. Eu só chorava, completamente desesperada e a única coisa que eu conseguia dizer era: "Tudo à toa, tudo à toda". Porque aquele foi o momento em que eu entendi racional e emocionalmente que acabou. Que não havia mais o que fazer. Que não tinha prorrogação. Fim. E um fim fora de esquadro, em um hospital frio, mercantilizado, que chamava o meu marido, pai da filha dele, tio dos sobrinhos, de 07, porque o quarto era o 1207.

Como o hospital nos deixou no escuro e inseguros com informações desencontradas e contraditórias, liguei para a médica dele de sempre. Ela me perguntou: você está pronta?

Você está pronta?

Não, eu não estava pronta. Eu hoje, sentada na mesa da sala enquanto digito este texto não estou pronta. Não faço ideia se estarei um dia. Respondi que não, que não estava pronta mas que estava preparada.

Eu não sabia mas eu estava mentindo. Eu não estava preparada.

Fui ao mercado essa semana e comprei açúcar mascavo, manga e tangerina murcote entre outras coisas. Ontem minha mãe perguntou porque diabos eu comprei açúcar mascavo se ninguém aqui usa. E avisou que a manga e a tangerina estavam estragando. É assim que a gente vai ficando preparada - pronta não. Quando se dá conta que não deixou de comprar as coisas que ele come e que, óbvio, não comeu porque são dele. Comi as duas, a manga e a tangerina.

Hoje completam-se dois meses que durmo sozinha. Ainda faço a contagem do tempo de morte incluindo dias. Ainda dou boa noite.


4.11.17

Poema sobre o Vazio - de Bruno Cattoni

Poema sobre o vazio

Escrevi um milhão de poemas no tempo-espaço de uma vida
Sobram seis versos.
Afiei um milhão de facas nas pedras que se me interpuseram
Sobra a estrada.
Matei milhares de animais para matar minha fome
Sobra um ser de nada
Soletrei tantos alfabetos que nem mais me comunico
Sobra a palavra amor.
Expulso do tempo, ando com um estrépito de asas no crânio
Não sei qual delas é par da alma, nem quando
Erguer-se-á, pela janela dos olhos, no vento que não enxergo.

CATTONI, Bruno. Osso (na cabeceira das avalanches). Rio de Janeiro: 7Letras, 2005


30.10.17

Amor ou telemarketing?

- Boa tarde, o senhor Bruno por favor?
- Ele morreu.
- A responsável pelas compras da casa agora é a senhora?

Ele morreu há apenas 3 semanas e já recebi três ligações como essa. Não deveria ter recebido nem mesmo uma.

Quando estava vivo, no auge da radioterapia, esquálido e com os médicos dizendo que ele não chegaria ao final do tratamento (chegou) as ligações eram ainda mais perversas porque não tinha ninguém do outro lado da linha. Era uma gravação oferecendo serviços funerários.

Sim, é isso mesmo: alguma agência é imbecil e canalha o bastante e algum cliente mais imbecil e mais canalha ainda para aprovar uma campanha que consiste em assediar famílias de pacientes oncológicos com telefonemas a qualquer hora do dia ou da noite, dia útil ou final de semana, oferecendo assistência funerária. Não solicitada.

Sim, dentro do universo da saúde (médicos, hospitais, clínicas, operadoras e etc.) há quem vaze ou venda informações sobre pacientes graves, em situação de risco. Hoje nos hospitais há placas alertando para golpes dados por telefone contra os pacientes e familiares. Ligavam para o meu celular e para o dele e, não satisfeitos, ligavam para o telefone fixo.

Imagine a cena: a pessoa que você ama, a quem você quer bem, absolutamente debilitada resolve ir sozinha para a radioterapia porque não é só o corpo que se deteriora, é o emocional também. Você cede, ainda que apavorada, porque entende que naquele momento, para sobreviver, a pessoa precisa acreditar que ainda tem alguma autonomia e gerência sobre a própria vida. Mesmo que não tenha. Vinte minutos depois da pessoa entrar em um táxi você atende um telefonema falando sobre a importância de ter quem nos auxilie nesse momento tão difícil, etc, etc, palavras desencontradas, baboseiras terroristas e, no meio, a palavra chave. A palavra que vai te derrubar no chão. Que vai te tirar a capacidade de perceber que é uma gravação: funerária.

Não, você não percebe de imediato que é uma gravação. Por um instante você pensa que a ligação é da clínica e que a pessoa morreu. E por um instante você perde o ar, o coração dispara, as pernas faltam. É apenas um instante. Mas esse instante dura uma eternidade, rouba sua paz de espírito - quando ainda há alguma - te desrespeita, desrespeita sua dignidade e a do paciente. Invade sua casa para te desrespeitar.

É por um instante e é aterrador. Principalmente quando você é acordado por essa ligação. E ela te acorda, várias vezes. E se você tem um paciente terminal em casa o sono é artigo raro e qualquer coisa que o perturbe traz junto taquicardia. Essas ligações não são só desrespeito, elas roubam a nossa saúde.

Esse instante acaba porque a gravação continua, indiferente ao seu interesse ou repulsa, agora oferecendo números para você escolher. "Para contratar digite 1" e por aí vai.

Tentei várias vezes, depois de me recuperar do susto, deixar a gravação ir até o fim para falar com o atendente e cancelar. Caía antes. Quando ia até o fim, a opção "cancelar" também derrubava a ligação. Enfim: usei o Reclame aqui e parecia que tinha acabado.

Há vinte e dois dias Bruno morreu. Há vinte foi enterrado. Semana passada recebi outra ligação como essa.

É imprescindível uma discussão e a tomada de ações relativas à todo o universo da indústria da saúde. E da publicidade e do marketing que o atravessam, via de regra, de forma aética, imoral, vergonhosa. Não dá para esperar que o governo haja. Cada um tem que, a partir de sua esfera, refletir, propor e exigir. No Brasil de hoje o doente e seus familiares são desrespeitados, não contam. Só o dinheiro importa. Médicos estão mercantilizando suas atuações. Hospitais estão, sorrateiramente, descontinuando o atendimento médico e privilegiando os serviços de hotelaria. Sim, é esse o termo usado. Hotelaria. Não é só a saúde pública que está caótica, a particular também. A Saúde não importa mais, é só palavra vazia em discurso de campanha e fonte de renda, alta renda, no resto do ano.


26.10.17

Estado Civil

Hoje tive o pôr-do-sol mais lindo de todos, desde que nos mudamos. Dourado. Lembra dos dourados? Que a gente via em silêncio para não atrapalhar? Imóveis para não macular? O de hoje foi assim. Mas você não estava do meu lado, imóvel e em silêncio, vendo tanta beleza. E estava tão lindo que doeu. Doeu sua ausência, doeu você não ver tanta beleza.

De toda burocracia em que nos afogamos durante o luto a mais massacrante que enfrentei até agora foi escrever viúva pela primeira vez. Me classificar e me identificar como viúva. Não é só uma palavrinha, não são apenas cinco letras: é aquela ausência enorme. É aquela pessoa que não é mais - nem para mim, nem para os outros, nem para si própria. É a família que acabou, o casal que não existe mais, os projetos que se perderam. Alguns em definitivo, outros terão que ser ressignificados, adaptados, adequados, enfim, virarão outra coisa. É um amontado de fins, encerramentos e transmutações que não foram desejados, acalentados, geridos, protegidos e cultivados. É uma hecatombe. É uma praga que se alastra vorazmente e põe por terra o que encontra pelo caminho.

E tudo que posso fazer é escrever "viúva" e torcer para sobreviver. Sim, sobreviver, como disse uma amiga, é à revelia. E hoje eu sei o quanto isso é verdade e como, às vezes, pode ser irritante. Estou falando aqui de torcer para sobreviver com gosto. De acordar com prazer, dormir porque tem sono, descobrir um sabor diferente naquele prato de sempre numa cozinha nova.

Nunca foi tão difícil dar um passo de cada vez, viver apenas um dia por dia.




4.10.17

QUANDO E COMO - de Bruno Cattoni

Quando Bruno e eu nos conhecemos, já no dia seguinte ele me enviou uma mensagem dizendo que queria me encontrar. Fiz só uma pergunta: "Quando e como?". Essa foi a resposta:

QUANDO E COMO
Minha alma sabe tudo sobre você
Não porque sabe ou quer saber,
Mas pelo que não sabe não saber
Não quer dizer que não sabemos
Só não precisamos nos esforçar
Ou correr o risco de ter juízo
Somos testemunhas do imprevisto
O amor substitui a curiosidade
Como cavalo que volta pra casa...
Quando põe de vez a meta na alma.

Hoje uma colega de trabalho enviou o poema em áudio para ele com uma mensagem de apoio. Chorei baldes. Litros do melhor dos choros - aquele da lembrança das coisas boas, dos bons momentos. Obrigada, Bette.

24.6.17

Câncer. Você tem o direito de saber.

Você tem o direito de saber. O tratamento, o porquê dessa escolha, quais as medicações, como elas atuam, quais as reações adversas possíveis (mesmo as improváveis), quais as sequelas possíveis (mesmo as improváveis), quais as sequelas certas.

Você tem o direito de saber se há outras opções de tratamento. Você tem o direito de escolher assim como tem o direito de arcar com as consequências, positivas ou negativas, das suas escolhas.

Você tem o direito de saber seu prognóstico, bom ou ruim. Você tem o direito também de escolher não saber. E cabe sim ao médico respeitar e atender sua decisão. A vida é sua, não é dele.

Você tem o direito de saber sua expectativa de vida. Você tem o direito de escolher não saber sua expectativa de vida. Com ou sem câncer, você tem sonhos, projetos, possivelmente uma família ou amigos, uma vida enfim. E tem todo o direito de saber quanto tempo ainda tem e se tem para se planejar e deixar tudo como você quer. Você tem o direito de gerir a sua vida e só com informação e informação correta você poderá fazer isso de forma eficiente, eficaz, satisfatória e, por que não, prazerosa.

Você tem o direito de saber. Você tem direitos. Você. É a sua vida. Exija.

Inca RJ
Praça Cruz Vermelha, 23 - Centro - 20230-130 - Rio de Janeiro - RJ - Tel. (21) 3207-1000

Inca SP

Onde tratar pelo SUS

Disque Saúde
136


4.4.17

Mexeu com uma mexeu com todas. Chega de assédio!

#chegadeassédio #MexeuComUmaMexeuComTodas Uma denúncia que não é anônima, feita através de uma coluna em um jornal que concedeu o direito de resposta no mesmo espaço e junto, e que conta com o suporte imediato de colegas da denunciante e de profissionais de todas as áreas, inclusive advogadas, está longe de um linchamento virtual. Não tem qualquer relação com linchamento virtual. Aos meus amigos e conhecidos homens e minhas amigas e conhecidas mulheres que ainda reproduzem machismo e que criticam feminismo sem saber do que se trata sugiro que se informem, que reflitam e, principalmente, que aprendam a ouvir. As mulheres estão finalmente falando. Ouçam. E não, não pensem que "podia ser minha mulher ou minha filha". Suas mulheres e filhas não devem ter privilégios, prerrogativas ou mais direitos que as outras mulheres. Pensem que são seres humanos como vocês e que têm que ser respeitadas.
Tem que botar a boca no trombone sim! De forma responsável, com suporte, com orientação legal para não virar o algoz da história. Mas tem que por a boca no trombone sim!

27.12.16

Meta?

Eu vou como flexa sem virgula sem ar sem oposição até o fim do ponto mais ínfimo fim da meta.

meta é o que falta na sua meta. Defina sua meta, mergulha em sua meta, se travista em sua meta para descobrir que só há você e a fantasia. E a meta?
Defina sua meta, definhe sua meta, mesquinha em sua meta, traída em sua meta para descobrir que não há meta nem você, nem fantasia. E a meta?
A meta é ver que não há. Ou há.

25.11.16

Interregno

No curto espaço de tempo
entre o pátio e o quarto,
no átimo do passo,
no intervalo da piscada,
no hiato do gole,
no lapso do suspiro
espero.


24.11.16

Mas é só um sitezinho...

Tudo isso? Mas é só um sitezinho...
Tudo isso? Mas é só um sitezinho...
Conversando com a moça que fez as flores do meu casamento, pedi o endereço do site dela. Meio sem graça, respondeu que o site era o que estava faltando, porque estavam cobrando, segundo ela, muito caro. 

Respirei fundo, entoei um mantra e perguntei: o que você chama de muito caro e o que teria no seu projeto? Ela me informa que ainda está se recuperando do choque de duas propostas "careréssimas": R$1.200,00 e R$1.500,00. Tive pena. Dela, de mim. Desse mercado favelizado e sem noção do valor das coisas, do custo do trabalho, da remuneração digna para as equipes. E respondi que por esses valores está de graça, ela devia pegar já! Lembrando claro, de todos os clichês que habitam o universo do nonsense: o barato que sai caro, por exemplo. E lembrando que o maravilhoso site gratuito que a companhia xyz oferece é... Pegadinha do Malandro! Você não tem o seu site, você tem a hospedagem e o domínio (nome). Se encontrar hospedagem mais barata... bem, azar o seu, porque tudo o que você fez ali na plataforma baratinha, gratuitinha e sacaninha não é seu, fica ali. Converse com um profissional sério. Procure uma solução viável e que não vá criar mais trabalho. Converse comigo. Quer conversar? Estou aqui, converso com você. Não, não trabalho de graça, mas posso construir com você um modelo para essa relação comercial que funcione para nós dois. Ou te indicar outro profissional.



18.11.16

Só sei que nada sei?

Meu marido começou um novo ciclo de químio ontem. Na sala em que a medicação é tomada qualquer dúvida sobre a cara do câncer se dissipa. O câncer não tem cara: homens, mulheres, idosos, jovens, crianças, gordos, magros etc.

Nessa clínica uma das paredes da sala é toda de vidro, a vista é um pátio com jardim e muitos passarinhos que vêm encher o bucho com as migalhas que ficam aqui e ali, dos almoços e lanches dos funcionários. Quase bucólico. É acolhedor. Com a sala ampla, bem iluminada, a gente quase esquece onde está. Mas um olhar mais atento e demorado aponta um desfibrilador a postos no cantinho.

A TV desfila a prisão dos ex-governadores do Rio, Cabral e Garotinho. Ninguém está interessado. É quase uma trilha incidental o som baixinho que vem do noticiário da TV.

Acompanhando essa primeira sessão desse novo ciclo entendo, finalmente, que os remédios auxiliares (anti-histamínico, antiemético) são ministrados para todos os pacientes, sem exceção. A menos, claro, que o paciente tenha alguma intolerância a essas medicações. São medicações preventivas para evitar ou amenizar os efeitos que a químio pode dar em alguns pacientes como alergias e vômitos. Fico pensando que isso é ótimo, que bom que podemos tentar evitar. Mas fico pensando, ao mesmo tempo, se não estamos evitando muito, se não estamos nos anestesiando muito, se na verdade estamos fugindo não da dor ou do mal estar, mas da vida. Cair é da vida. Caiu? Levanta. Não estou dizendo que é fácil, ninguém disse. Me pergunto se quando evitamos cada mísero tropeço não vamos abrindo mão, ao mesmo tempo, da capacidade de improviso, de um raciocínio mais ágil, de autonomia no que diz respeito ao nosso corpo, a nossa saúde, as decisões que devem ser só nossas sobre o nosso bem estar. Se não estamos abrindo mão de um compromisso que traz a responsabilidade pelas consequências mas mantém as rédeas da nossa vida em nossas mãos, minimamente que seja.

Nessas idas e vindas a consultórios, laboratórios, clínicas de rádio e químio me impressionou o quanto as pessoas delegam sua integridade física. Ouvindo as conversas entre os pacientes percebi que a maioria não sabe e não quer saber o nome do remédio que toma:

- Eu tomo o "vermelho". E você?

- Eu tomo o "branco". Com o branco o cabelo não cai, né?

Vermelho e branco são as cores das embalagens. Parece que predomina um pensamento mágico de que ignorar os manterá fora do alcance de reações adversas, da doença.

Eu? Tomo. Para dor de cabeça, relaxante muscular, para dormir, para ansiedade. Tomo. Não sou contra medicação. O que me espanta é a escolha por não saber. Não saber da própria vida. Ao mesmo tempo, as revistas mais lidas nas salas de espera são as de fofoca. Dá o que pensar...


13.11.16

Vamos todos morrer mesmo

"Vamos todos morrer mesmo", diz o comentarista de rede social. Tratando a fala com o tom displiscênte que ele acredita que o assunto deve ter. A morte do outro. A tristeza do outro. O outro. Foda-se o outro: "Farinha poca meu pirão primeiro".

Então, caro comentarista de rede social, de grande portal, de fila de padaria de bairro. Sabe que eu nem sinto pena de você não perceber que para o resto da humanidade você é o 'outro', ou seja, você é aquele ente invisível e irrelevante que não merece respeito nem reverência nem durante a vida e nem durante a morte. E a sua morte vai chegar. Solitária e irreverente, provavelmente irrelevante. E a doença vai chegar de braços dados com toda a solidão e silêncio possíveis e que sequer imaginávamos.


Aí... aí talvez eu, por prazer sádico demandado pela mágoa represada, me dê o prazer de falar, olhos cravados nos seus (mas vendo atrás, sua invisibilidade é incontornável), o prazer de falar, com o tom displicente que a sua irrelevância tem que "Vamos todos morrer mesmo." Depois você me conta


Ladrilho Hidráulico ou por quê procrastinar a decisão de continuar procrastinando? Ou não


Enquanto tomo o chá de hortelã,
o gato mia,
e a chuva cai,
me pergunto:

Chá de chia
ou sopa Tai?

Agonia besta
importa é a sesta depois do almoço.

Olhos despertos:
Ladrilhos hidráulicos no chão
da lavanderia?
Ladrilhos Hidráulicos nas paredes
do jardim da entrada?
Ladrinhos nos banheiros.

Hidráulicos – os ladrilhos, não os banheiros.

5.10.16

Poderíamos. Mas não iremos.

Poderíamos falar sobre o tempo, o calor, a chuva... vai chover? acho que não. Elevador é isso: Poderíamos mas só o silêncio constrangedor se faz. Aquele breve e embaraçoso momento vai-não-vai na hora de sair daquela caixa incômoda, daquela situação desagradável. E cada um segue para o seu lado, finalmente livres, aliviados e arrastando aquelas lembranças de 15 anos juntos na escola, 2 anos no mesmo escritório ou um ano no mesmo ponto de ônibus, no mesmo horário. Ainda bem que não se verão novamente. Eu acho.

Foi golpe. Não foi golpe, impeachment é previsto na constituição. Sim, mas só se atender certos pré-requisitos: tem que haver crime de responsabilidade praticado pelo executivo, teoria do domínio do fato não cabe. Ah, nada disso, só é golpe se tem arma na cabeça e tanque nas ruas. Ah, então é golpe, pergunta pro pessoal do complexo do alemão.

Poderíamos fingir que não ouvimos, ou simular com a resposta que não entendemos a pergunta e tecer tranquilos um novo samba do criolo doido. Mas eu cansei, na verdade você está com olheiras e o custo benefício... bem. Que custo benefício?

Pizza? Pode pedir. Eu vou pedir um japa pra mim. Vou dormir no quarto da tv, não me acorda, tem um resto de champa pra você na geladeira. Não esquece de limpar a areia do gato e passar a chave por baixo da fresta da porta. Beijo. Segundamente, Fora Temer.Ahhhh, nem vem, foi golpe sim. Óh, quer saber? Não tô nem ouvindo sua golpista!

Onde é que eu estava com a cabeça quando beijei essa boca?


30.8.16

Avante, avante!

Acorda, senta, calça os chinelos. Seguir a rotina. Lavar o rosto. Por quê mesmo não colocou água quente na pia do banheiro? A rotina estrutura o dia. Passar o café. Nunca gostou de café. Rotina e disciplina para garantir a linha reta. Avante, avante.

Um checklist diário: abrir as janelas, tomar banho, escovar os dentes, ler os e-mails. Mercado. Todos os dias, mercado. Rotina. A rotina estrutura o dia. Rotina e disciplina para garantir a linha reta. Avante, avance.

Quando não há sentido, cria-se o sentido. Alinhavar o aleatório, tecer uma linha reta com o acaso para desviar do imponderável. Ajeita os potes de tempero. Não é TOC, é método, disciplina. Rotina. "Persevera e alcançará seus sonhos, só depende de você!". Quem acredita nessas bobagens? se pergunta, enquanto move milimetricamente o saleiro. Autoajuda do autor! Adora essa piada velha.

Lavar a louça. Primeiro os pratos fundos, depois os rasos, por fim os de sobremesa. Agora os talheres. Primeiro as colheres, depois os garfos, por fim as facas. Os grandes. Agora os de sobremesa. Mas atenção! Antes de qualquer coisa lavar os copos!

Acorda, senta, calça os chinelos. Seguir a rotina. Lavar o rosto, por quê mesmo não colocou água quente na pia do banheiro? A rotina estrutura o dia. Passa o café. Nunca gostou de café. Rotina e disciplina para garantir a linha reta. Avante, avante.





16.8.16

Para que serve o Câncer (de Bruno Cattoni)

Deveria servir para revalidar o diploma de compaixão dos médicos
que, na justiça dos homens, são heróis da ciência e da dedicação ao ofício,
mas que, na justiça dos Céus, tão materialistas mantém-se na razão direta da essência difusa de seu sacerdócio e também da imperfeição mundana que demonstram no trato da alma humana.

Deveria servir como suplemento de esperança mesmo depois que nos damos conta de que tudo acaba em esperança. Para que alguém que assiste um paciente lutando pare de claudicar em sua jornada de vanglória e de se flagelar emocionalmente no raso egoísmo, indiferente, como sempre, às profundas demandas de amor da humanidade.

Deveria servir para implementar a mística do verdadeiro sacerdote do amor solidário, que foi falindo, paulatinamente, na razão inversa da evolução da ciência, até que merecesse hoje o sinônimo de facultativo.

Deveria servir para implantar na terra dos homens a igualdade e nos corações que ainda restam a fraternidade exemplar que é a razão de ser, de estar e de permanecer de toda cura.

Deveria servir para nos conhecermos melhor através da dor...

...mas que só tem servido, para extinguir (com doses elevadas de fármacos) - mais que o corpo, mais que as famílias e mais que os laços de afeto - o não menos sagrado tempo e a natureza divina de que somos feitos, acendendo paradoxal e tardiamente a centelha universal em "nós outros", nos quais só vemos o "nós mesmos", renegados e negadores da vida em cada iniciativa diária de superar o próximo que ainda nem amamos e por quem não teremos tempo de sofrer.



"Podem vir as dores - tão contraditórias - que nós apagamos o ser para ele não ver que, lindamente, amadurece!" – diz o médico



29.6.16

É o Momento Fudeu


Não é a queda, o impacto no chão, ralados e sangue. É o momento que precede a queda. Aquele átimo de instante em que não há contato com nenhuma superfície, nem nada, nem tempo nem ninguém em quem se agarrar e a única visão é a do chão duro, inexorável e indiferente se aproximando da sua cara. A sua cara sem ar, a sua cara muda, a sua cara que vai quebrar. Também conhecido como Momento Fudeu.

Há o Momento Fudeu gastronômico. Quando, por exemplo, o bolo já está no forno há mais de 10 minutos e o gás acaba.

Há o Momento Fudeu informático. Quando você finaliza um e-mail com um SUA VACA, assim, em caixa alta só pra desopilar e quando vai apertar o botão de delete o gato salta do lado e aperta o botão da direita que está sobre o enviar.

Há o Momento Fudeu Agora-vou-morrer, quando o médico da 4a opinião te informa, assim como o da 3a, que o primeiro errou, errou feio e que agora o seu câncer inicial encontra-se em estágio avançado e rádio e químio e famílias e amigos evaporando. Nesse Momento Fudeu a tônica é a solidão. A solidão e a gincana desumana promovida por Anvisa e receita federal. Morram vocês, seus putos! Que eu vou é dar a volta por cima!

Não é a queda, o impacto no chão, ralados de sangue. Não é o cheque sem fundo. Não é a morte inesperada, não é o pão que caiu no chão - filho único - com o último tiquinho de manteira virado pra baixo.

É aquele instante, criatura, de consciência lúcida, segundos antes da sua cara estraçalhar no chão. O segundo entre a identificação do número do banco no visor do celular e a voz protocolar da atendente de telemarketing da empresa de cobrança. É aquele instante ao telefone segundos antes do interlocutor dizer - morreu. Mas você já sabe. Você já sabe que morreu assim como sabe que aquele pão era o último e você não tem um puto para comprar outro amanhã.

É, enfim, aquele segundo eterno em que o muro ainda está longe mas você já percebeu que o carro está há 180km/h e os freios não funcionam.

O Momento Fudeu é o momento em que não há. Saída. Não há. Solução. Não há. Não há mais ninho.


22.6.16

Agora eu entendi


Nos últimos dias entendi coisas que eu já sabia. Eu já sabia que passei dos 40. Mas agora entendi. Eu já sabia que tenho uma doença crônica. Mas agora entendi. Eu já sabia que sou mortal. Agora entendi.

Agora entendi aquelas camadas ocultas de informação que já estavam lá nas lembranças de infância, entremeadas nas falas de pai, de mãe, de avós.

Eu já sabia que quando ela disse para ele com um tom doce e infantilizado “eu não te suporto, meu amorzinho” ela estava apenas camuflando a agressão por causa das crianças presentes. Porque, claro, ela não aguentou esperar as crianças saírem de perto para gritar “eu não te suporto, seu filho da puta!”. Mas agora eu entendi que quando eu repeti para ele “eu não te suporto, meu amorzinho” imitando a voz e o tom doce e infantilizado porque os meus seis anos de idade ouviram a camuflagem e não as palavras, bem, agora eu entendi que eu feri ele profundamente. Porque ela me fez faca, estilete.

Eu já sabia que isso e outras coisas mais foram e são problema deles. Agora eu entendi.

Eu já sabia que um dia eu ia crescer e entender. Agora eu entendi que eu não tinha a menor ideia. Agora eu entendi.

15.6.16

Central do Textão


Imagina todos aqueles blogs ótimos que você lia já há mais de uma década juntos. Imaginou? Pois existe. E eu também estou lá, Central do Textão!

Porque as redes sociais são ótimas.
Mas acabam, desvirtuam, não têm indexação.
Porque aquele conteúdo ótimo foi na postagem de quem, mesmo? Ou foi num comentário? Quando?

Porque lá você encontra de uma tacada só a Fal, a Telinha, o Paulo Candido, o Ricado Cabral,   o Biscate Social Club, o Claudim Luiz e uma pá de gente que escreve de um tudo, para todos os corações, mentes e ouvidos àvidos pela palavra doce, pela palavra árida, pela palavra seca, pela palavra força, pela palavra. Pela palavra.

13.6.16

Boa noite



Sopinha quente, meia macia, cobertores, pijamas, ele, gatinhos.

Meia luz, aquecedor travesseiros muitos.

Maritacas adiantadas, cigarras atrasadas, isso é uma coruja?

Boa noite.

31.5.16

A casa dorme, eu não.

Insonia

A pata da gata na minha cara. Ele ronronando ao lado. Suspirinhos peludos atados aos meus pés. Silêncio de grilos e folhas secas caindo. A casa dorme, ressona, com respiração profunda e compassada. Eu não. Ele dorme tranquilo, a gatinha tem pesadelos, o gatão acha que é hora de brincadeira. Eu não encontro o botão de desligar.

Mas já deixei para trás o noticiário, a maledicência nas salas de espera, os comentários medievais e hidrófobos nos curtos trechos dentro de um ônibus preguiçoso e trôpego.

Já deixei para trás os trolls, os hatters, os odiosos, os medíocres, os revoltados on e off line.

Agora somo só eu e você, insônia velha de guerra, embebida em zolpidem, rindo litros do hemitartarato. Só observo. Quem sabe se eu ficar bem quietinha, se eu respirar miúdo, se eu só pela metade? Se eu só? Se eu? Bem quietinha, fingindo dormir. Quem sabe você acredita? Quem sabe?

26.5.16

Estupro não é piada




Uma adolescente de 16 anos foi estuprada por um grupo de homens no Rio de Janeiro. O vídeo do estupro foi compartilhado em redes sociais e os comentários variavam entre piadas e acusações contra a vítima. A vítima seria culpada pela agressão sofrida. O caso ainda está em investigação.

Entre os vários problemas que a notícia aponta, muitos da esfera criminal, escolhi um para falar sobre. A vítima e a postagem de um homem afirmam que foram mais de 30 envolvidos. Cultura de estupro é isso. Mais de 30 homens e ninguém sequer cogitou a possibilidade de estar cometendo um crime. Poderia falar sobre a cultura do estupro.

Poderia falar sobre a falta de ações eficientes e regulares para coibir o crime de estupro, sobre como culpam sempre a vítima, sobre como a questão é minimizada. Poderia falar sobre a tranquilidade com que pessoas presenciam assédios nos ônibus, trens, ruas, escolas, casas e não impedem. Poderia, ainda, falar sobre o fato de 30 homens terem escolhido praticar um crime. Um crime contra uma pessoa incapacitada de se defender, uma mulher dopada. Um crime que não fala só de gênero, fala de ódio, de subjugar, de humilhar. Um crime que passa por tirar do outro as escolhas, portanto, a autonomia. Um crime mais que violento, um crime autoritário. Homens violentos, perigosos, medíocres e pequenos: precisam da vítima sedada para se sentirem poderosos e no controle. Porque sim, trata-se também de controle. E porque esta não é a única vítima sedada. Quando mulheres não denunciam os estupros que sofrem por vergonha, é porque estão sedadas. Quando pessoas não impedem, é porque estão sedadas. Poderia falar da sociedade doente da qual fazemos parte, que naturaliza o estupro, minimiza e culpa a vítima. Acha a minissaia uma ofensa passível de punição através da prática de um crime. Use uma minissaia e seja sentenciada a sofrer um estupro. Está aí: poderia falar sobre as roupas como instrumento de controle e submissão da mulher. Mas escolhi falar das piadas.

Sim, escolhi falar das piadas. O que leva as pessoas, homens e algumas mulheres também, a acharem que estupro é piada? Que não só não há problemas em cometer estupros e estupros coletivos contra vítimas sedadas, como também achar que é natural fazer piada? É razoável imaginar que isso seja fruto de uma sociedade machista e fortemente influenciada por vertentes religiosas cada vez mais fundamentalistas. Algumas, inclusive, nem podem ser consideradas como religião, são na realidade empresas com lucratividade alta, abençoadas pela isenção fiscal – que deveria acabar já, seria uma excelente fonte de recursos para saúde, educação e cultura.

É neste cenário, alimentado por propagandas idealizando a mulher como “boazuda” disponível ou princesinha submissa, que uma presidência interina extingue o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos. Essa extinção é a um só tempo alimento e reflexo desse cenário. Assim como o atual ministério: sem mulheres, sem negros, sem representatividade. Um país que não se importa com a integridade física de suas mulheres não pode mesmo se importar com o fato de agressões virarem piada.

Enquanto terminava de escreve esse texto vi a notícia de mais um estupro coletivo, dessa vez no Piauí. A situação é gravíssima. Não é mais possível se omitir em relação à violência contra a mulher. Não é mais possível permitir ou relevar discursos que apontam feminismo como opressão ao homem e feministas como mulheres mal amadas (seja lá o que isso signifique), homossexuais (qual o problema?), que não se depilam (qual o problema?) e que praticam linchamento virtual (quem faz linchamento virtual não é feminista, é linchador). Não é mais possível permitir que as pessoas, desconhecendo o que é o feminismo, propaguem conceitos errados. Não é mais possível.

Vou me repetir: quem é da escrita, escreva. Quem é da foto, fotografe. Quem é da música, cante. Mas aja. Positivamente, amorosamente, incisivamente. Mas aja.

2.3.16

A vida selvagem dos gatos

A vida selvagem dos gatos deu as caras aqui em casa hoje. Acordei com um barulho de helicóptero, olhei para o lado e, ó que lindo! um beija-flor dentro do quarto! Ah, que coisa mais lin... Não! Socorro, putaquepariu, para Eva, sai Flor! E quase vou de cara no chão: o beija-flor estava se debatendo no vidro da janela e tentando desesperadamente não virar café da manhã das gatas. Nada lindo. Literalmente voei, dei uma rasteira Duplo Twist Carpada nas gatas, abri a janela, tudo ao mesmo tempo agora, e salvei o beija-flor. Ufa!

Ufa nada, no quarto ao lado jazia uma rolinha. Pausa. Pausa nada, Eva pegou com a boca e está correndo! Com o cadáver na boca! Para o meu quarto, para a minha cama! Não, Eva! (nesse momento sou o homem de seis milhões de dólares, ou seja, corro em câmara lenta). Eva abandona o de cujus no meio do quarto contrariada. Eva me abandona no meio do quarto, desolada. Me concentro no beija-flor. Não se pode ganhar todas.

7.1.16

"Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180"


CONTRA O FEMINICÍDIO  E A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA LIGUE 180


(Para ler ouvindo Elza Soares cantando Maria da Vila Matilde*)
A skatista Giselle Alves foi assassinada no dia 30 de dezembro de 2015 em Paraty, de acordo com blogs e sites internacionais. A nossa imprensa não nega nem confirma, por enquanto. No dia 1 de janeiro já havia matérias em sites no exterior identificando fato e vítima. Aqui deram a notícia identificando a vítima como "uma mulher". Não falam sobre suspeitos e o crime é resumido como "pancada na cabeça". Em um único parágrafo conferiram invisibilidade a Giselle reduzindo-a à "uma mulher" em vez de a skatista brasileira reconhecida no país e no exterior Giselle Alves.
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Natural é se perguntar por que no Brasil a notícia está praticamente escondida. Afinal, Giselle é uma skatista brasileira famosa. As notícias publicadas no exterior e comentários em redes sociais chegam a apontar um suspeito, caracterizando o crime como violência doméstica. Considerando que as investigações mal foram iniciadas, uma imprudência. Se lá foram imprudentes, aqui parecem não se importar. Os questionamentos e a desconfiança fazem sentido uma vez que, em 2013, 4.762 mulheres foram assassinadas no Brasil. Em 1980 foram 1.353. Mais do que o triplo em 3 décadas (fonte: Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil). Mesmo com Lei Maria da Penha, com as Delegacias Especializadas de Defesa da Mulher (veja aqui a relação por estado) e campanhas como Ligue 180, da Central de Atendimento à Mulher.

O assassinato de mulheres tem uma particularidade especialmente perversa que é um segundo assassinato cometido logo em seguida, o do caráter da vítima. Culpam a vítima!

Ângela Diniz foi assassinada por Doca Street em 1976. Não sei onde encontrar dados sobre aquele período. Mas o que importa é que não foi o primeiro assassinato do tipo e está longe de ser o último. Doca foi condenado, no segundo julgamento, à 15 anos de prisão mas cumpriu apenas 3 e teve direito a liberdade condicional. Em entrevista dois anos após o assassinato o pai de Doca faz insinuações sobre o caráter de Ângela (sempre culpam a vítima) enquanto a mãe de Ângela fala o óbvio, que até hoje não é ouvido: "Ela tinha direito de fazer da vida dela o que ela quisesse. Ela tinha direito de não viver mais com esse homem, que ela não queria viver mais com ele. É um direito que ela tinha. E ele quer fazer acreditar que a matou por amor. Por que que ele não morreu também por amor? Por que que ele não dividiu a crueldade?"

No primeiro julgamento Doca foi condenado à apenas 1 ano e meio de prisão, mas conseguiu sursis e já saiu  do fórum em liberdade e aplaudido. As pessoas na rua, homens e mulheres, declaravam para repórteres sua satisfação com a liberdade do assassino. Apenas duas mulheres se declararam contra.

Essa era e continua sendo a cultura no país em relação à mulher: apenas um objeto, sem direitos, nem mesmo o mais básico de todos, o direito à vida. A claque na porta do fórum aparentava concordar com o escritor (adjetive como achar mais adequado) Carlos Heitor Cony, que declarou, na época:

‘Vi o corpo da moça estendido no mármore da delegacia de Cabo Frio. Parecia ao mesmo tempo uma criança e boneca enorme quebrada… Mas desde o momento em que vi o seu cadáver tive imensa pena, não dela, boneca quebrada, mas de seu assassino, que aquele instante eu não sabia quem era’.

Doca só teve um segundo julgamento porque a reação popular (especialmente de feministas) foi negativa frente a uma condenação branda e substituída por liberdade. O julgamento foi anulado e ocorreu então o segundo.

Agir. Agir é o que traz mudança.

Passaram pela mesma tragédia do assassinato físico seguido do moral as famílias de Mônica Granuzzo e Daniella Perez. O pai de Mônica chegou a ser chamado de palhaço pelo juiz que conduzia o caso que, não satisfeito, mandou que a segurança o retirasse do recinto. Sobre Mônica falou-se até que era travesti - como se isso fosse uma ofensa. O assassino de Mônica, o ex-modelo Ricardo Peixoto, hoje dá aula na praia de Copacabana. Brilha vivo sob o sol.

Com Daniella Perez não foi diferente: culparam a vítima e foram além, culpando sua mãe, que estaria exibindo a filha na novela.

Glória Perez agiu. Recolheu 1,3 milhão de assinaturas, conseguindo que homicídio qualificado se tornasse crime hediondo. Há discussão se foi ou não iniciativa popular, se deveria ou não ser hediondo, se a privação de liberdade é solução mas, convenhamos, discussões irrelevantes. Relevante é a lei só ter se debruçado sobre o assunto quando assassinaram uma atriz famosa e branca, filha de uma diretora de tv famosa e branca. Que bom que a repercussão trouxe resultados positivos para as mulheres em alguns casos posteriores ao de Daniella perez. Mas não podemos ignorar que entre 2007 e 2013 o aumento de assassinatos de mulheres negras aumentou em 54% e o de mulheres brancas, no mesmo período, diminuiu em parcos 9,8%.

São tantos casos que não caberíam em um único tomo: Claudia Lessin Rodrigues, Viviane Alves Guimarães Wahbe, Ana Carolina Vieira, Raquel Rodrigues Soares e tantas, tantas mais.

O feminicídio é uma realidade e uma cultura e não só no Brasil. Agir é o único caminho possível. Ligando 180 se a vítima for você ou a outra, escrevendo sobre se for escritora, legislando se estiver na política etc, etc. Use sua área de atuação para mudar essa realidade e essa cultura.

Aja!



  • Para ligar quando for preciso, por você ou por outra: 180, Central de atendimento à Mulher
  • Para saber mais: Lei Maria da Penha
  • 1.1.16

    "Cría cuervos, y te sacarán los ojos" ou "Proteger eternamente a cria pretensamente frágil será seu atestado de óbito"

    Para ler ouvindo: Música: Mamãe, não chore

    Para assistir depois: Crya Cuervos, de Carlos Saura, com Geraldine Chaplin. Aqui um trecho.


    Qual a semelhança entre o texto e o filme? A crença fictícia de Ana de que a morte dos pais é culpa dela. Não é. Assim como esse filho torto não é culpa da mãe. Só será se ela concordar em criar e sustentar um universo paralelo




    Para reflexão uma breve história.

    Mas poderiam ser duas, três ou mais. Poderiam ser mais leves ou mais pesadas. Envolver ou não agressões físicas ou verbais. Onde se lê filho pode-se ler filha. Todos negam (Que horror! O que os vizinhos vão pensar?), mas toda família tem um núcleo assim. Às vezes apenas não sabem.

    Uma mãe sofre agressões verbais do filho. Essas agressões, acompanhadas de furtos de pequenos objetos, dinheiro e joias progridem para agressões físicas. A mãe faz o registro de ocorrência mas desiste, coitado do filhinho... Não vai à delegacia quando é chamada e quando vai retira a queixa. O filhinho agressor continua em casa, alimentando agressões morais e físicas (cada vez mais intensas), depredando o patrimônio, o caixa e a autoestima da mãe. Em pouco tempo parará de trabalhar e passará a ser sustentado por ela, mesmo que já tenha passado dos 30. Geralmente esse filho também tenta isolar a mãe do relacionamento com o outro filho ou filha, com o resto da família e com os amigos.

    A mãe, por sua vez, nas poucas conversas que tem fora desse ambiente, atribui ao outro filho ou filha (a essa altura já expulso de sua casa, de sua família e de sua história) a falta de caráter e a violência daquele que ela acolhe: se uma mãe está falando mal do filho, ele deve ser três vezes pior do que isso, pensam os ouvintes. Está arruinada aí a primeira vida: a do outro filho. Que vira a ovelha negra sem voz. Ninguém ouve um filho que foi desacreditado pela mãe. A conta emocional, familiar, social e profissional que esse filho pagará é alta. E será cobrada em cada centavo.

    A mãe será desconstruída e destruída a cada dia, com agressões verbais ou físicas, com o desmonte do seu lar. Essa é a segunda vida perdida.

    O filho protegido perderá o contato com a realidade, perderá a empregabilidade ou a capacidade de empreender. Passará a ter uma visão da vida social, familiar e profissional totalmente distorcida, alimentada pela mãe. O que será desse filho quando essa mãe não estiver mais presente? Essa é a terceira vida destruída.

    Se você é o outro irmão

    Queridos e queridas: se você é outro irmão ou irmã, entenda que ninguém adoece sozinho e que aquilo não é só mau caratismo. A família toda está doente. Afaste-se para preservar sua integridade física e mental. Você precisará das duas para salvar sua mãe ou mesmo seu irmão ou irmã – isso, claro, se eles quiserem ser salvos. Às vezes não querem. É como dizem as aeromoças: adultos saudáveis, em emergências, devem colocar suas máscaras de oxigênio primeiro, para ter condições físicas de colocar as máscaras em seguida nas crianças, nos idosos e nos doentes.

    Se você é a mãe

    Acredite: você não está protegendo o seu filho (seja porque ele é o mais novo ou o mais frágil ou o que for). Você está condenando essa pessoa a impossibilidade de reintegração à uma vida social saudável. Esse mundo que você está alimentando em que um adulto tem cama, comida e roupa lavada de graça, em que aqueles que "incomodam" não podem estar presentes mesmo sendo seus amigos ou sua família não é real. Humilhar e diminuir o outro filho não tornará esse melhor, nem mesmo por comparação. E quando você não estiver mais presente? Como essa pessoa adulta, já passada da meia idade, vai aprender sozinha a lidar com as dificuldades e realidades do mundo? Você não está protegendo seu filho, está condenando. Pior, está condenando o outro também. E, acredite: você precisará do outro, porque essa doença, psiquiátrica ou não, cresce em escala progressiva. Você precisará de ajuda.

    O que fazer

    Não sou psiquiatra e cada caso é um caso. Mas algumas coisas são básicas. Sua integridade física e mental primeiro. Se a única forma de mantê-las for se afastando, afaste-se. Isso vale para a mãe e para o outro irmão ou irmã. Em seguida procure a orientação de um psiquiatra e de um advogado. Abra a situação para a família, não é vergonha nenhuma. Não faça nada sozinho. Mas faça alguma coisa.

    Relações abusivas não devem ser aceitas, prejudicam a todos e nunca acabam bem.

    30.12.15

    Parangolizemos 2016!


    Vestir textos, palavras, fonemas, sons, cores, tons, formas, texturas grafismos e mover o corpo e mover a alma e criar a ação e ser a obra e o autor. Num só golpe, despindo-se de vírgulas e parágrafos. Protagonize-se.

    Para ler ouvindo Tropicália.

    27.12.15

    (...) e só então retornemos.

    Enquanto não entra 2016 e o retorno, deixo aqui alguns escritos antigos que estão entre os meus preferidos:

    21.1.06
    Mandaram avisar

    minha cama
    meus seios
    meus quadris
    e minha língua

    todos, todos
    mandam avisar:

    saudades de você!

    --------*--------

    Que bom que você Veio!

    --------------------------------------------------

    2.2.06
    Orquídea

    Minha pele se rasga da nuca ao cóccix
    Dando liberdade a uma gigantesca lâmina
    De cartilagem e penugem.

    Meu peito se rasga
    E dele sai em vôo tumultuando
    Um enxame de vespas
    Que zunem, zunem, zunem

    Minhas veias ultrapassam o limite
    Das pernas e se tornam raízes grossas
    E firmes, que me prendem ao solo.

    Nesse momento, meu tronco se solta
    E alço vôo, com meus braços que já viraram asas.

    Do alto observo o bailar das nuvens
    E o gorjeio dos automóveis

    As penas das asas se soltam
    Uma a uma
    Transformando-se em pétalas de orquídea
    Que caem docemente pelo chão.

    --------------------------------------------------

    22.2.06
    O Novo 

    Sístole, assístole
    Tum-tum
    Tum-tum
    Coraçãotaquicardia

    Mas isso,
    Isso foi ontem...

    Hoje, quando te vê
    Ele já nem bate

    Apenas um leve pulsar delicado,
    Doce, tranqüilo e discreto.
    Por outro.

    --------------------------------------------------

    8.2.06
    Prato Feito 

    Almoço baratas
    Janto ratos
    Engulo sapos

    Quem serve? Eu

    Lucy in the sky with diamonds
    Mentira, Falácia.
    Lucy in the sky with evil pills in her mind

    Me alimento do pó
    Que os cupins fazem do meu cérebro
    Me nutro, me regozijo e celebro